DIALTICA DA MALANDRAGEM ANTONIO CANDIDO PDF

Akinocage He also co-founded the cultural magazine Climawhich ran from to For more information, see our privacy statement. If you want to create a new NLR account please register here. The strange fate of realism in an ex-colonial society, in which liberalism was a ruling ideology, modernity a universal ideal, and slavery still an antoio fact of life. Competing Readings Roberto Schwarz discusses the cultural-political import of rival interpretations of Machado de Assis, within the critical space of world literature. At a time when the Vargas dictatorship was persecuting the left, and the Communists, victims themselves, were persecuting in their turn, his stance called for courage.

Author:Akikinos Tanris
Country:Uganda
Language:English (Spanish)
Genre:Personal Growth
Published (Last):24 November 2016
Pages:55
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ISBN:855-2-35768-923-4
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Em Jos Verssimo definiu as Memrias de um sargento de milcias comoromance de costumes que, pelo fato de descrever lugares e cenas do Rio de Janeiro no tempo de D. Joo VI, se caracterizaria por uma espcie de realismo antecipado; em conseqncia, falava bem dele, como homem de um momento dominado pela esttica do Naturalismo. Praticamente nada se disse de novo at , quando Mrio de Andrade reorientou a crtica, negando que fosse um precursor.

Seria antes um continuador atrasado, um romance de tipo marginal, afastado da corrente mdia das literaturas, como os de Apuleio e Petrnio, na Antigidade, ou o Lazarillo de Tormes, no Renascimento -, todos com personagens anti-hericos que so modalidades de pcaros.

Uma terceira etapa foi aberta em por Darcy Damasceno, que abordou a anlise estilstica, tendo como pano de fundo uma excelente rejeio de posies anteriores: No h que considerar-se picaresco um livro pelo fato de nele haver um pcaro mais adjetival que substantival, mormente se a este livro faltam as marcas peculiares do gnero picaresco; nem histrico seria ele, ainda que certa dose de veracidade haja servido criao de tipos ou evocao de poca; menos ainda realista, quando a leitura mais atenta nos torna flagrante o predomnio do imaginoso e do improvisado sobre a retratao ou a reconstituio histrica.

E depois de mostrar com pertinncia como so reduzidas as indicaes documentrias, prefere o designativo de romance de costumes.

A nica dvida seria referente ao realismo, e talvez nem esta, se Darcy Damasceno estiver se referindo especificamente ao conceito usual das classificaes literrias, que assim designam o qu e ocorreu na segunda metade do sculo XIX, enquanto o meu intuito caracterizar uma modalidade bastante peculiar, que se manifesta no livro de Manual Antnio de Almeida. Romance picaresco? O ponto de vista segundo o qual ele um romance picaresco, muito difundido a partir de Mrio de Andrade que todavia no diz bem isto , recebeu um cunho de aparente rigor da parte de Josu Montello, que pensa ter encontrado as suas matrizes em obras como La vida de Lazarillo de Tormes e Vida y hechos de Estebanillo Gonzlez Mas na verdade Josu Montello fundouse numa petio de princpio, tomando como provado o que restava provar, isto , que as Memrias so um romance picaresco.

A partir da, supervalorizou algumas analogias fugazes e achou o que tencionava achar, mas no o que um cotejo objetivo teria mostrado. De fato, a anlise da picaresca espanhola faz ver que aqueles dois livros nada motivaram de significativo no de Manuel Antnio de Almeida, embora seja possvel que este haja recebido sugestes marginais de algum outro romance espanhol ou feito maneira dos espanhis, como ocorreu por toda a Europa no sculo XVII e parte do XVIII.

O que se pode fazer de mais garantido comparar as caractersticas do "nosso memorando" como diz o romancista do seu personagem com as do tpico heri ou anti-heri picaresco,minunciosamente levantadas por Chandler na sua obra sobre o assunto 3.

Em geral, o prprio pcaro narra as suas aventuras, o que fecha a viso da realidade em torno do seu ngulo restrito; e esta voz na primeira pessoa um dos encantos para o leitor, transmitindo uma falsa candura que o autor cria habilmente e j recurso psicolgico de caracterizao.

Ora, o livro de Manuel Antnio contado na terceira pessoa por um narrador ngulo primrio que no se identifica e varia com desenvoltura o ngulo secundrio -, trazendo-o de Leonardo Pai a Leonardo Filho, deste ao Compadre ou Comadre, depois Cigana e assim por diante, de maneira a estabelecer uma viso dinmica da matria narrada. Sob este aspecto o heri um personagem como os outros, apesar de preferencial; e no o instituidor ou a ocasio para instituir o mundo fictcio, como o Lazarillo, Estebanillo, Guzman de Alfarache, a Pcara Justina ou Gil Braz de Santilhana.

Em compensao, Leonardo Filho tem com os narradores picarescos algumas afinidades: como eles, de origem humilde e, como alguns deles, irregular, "filho de uma pisadela e um belisco".

Ainda como eles largado no mundo, mas no abandonado, como foram o Lazarillo ou o Buscn, de Quevedo; pelo contrrio, mal os pais o deixam o destino lhe d um pai muito melhor na pessoa do Compadre, o bom barbeiro que toma conta dele para o resto da vida e o abriga da adversidade material.

Tanto assim que lhe falta um trao bsico do pcaro: o choque spero com a realidade, que leva mentira, dissimulao, ao roubo, e constitui a maior desculpa das "picardias".

Na origem o pcaro ingnuo; a bru talidade da vida que aos poucos o vai tornando esperto e sem escrpulos, quase como defesa; mas Leonardo, bem abrigado pelo Padrinho, nasce malandro feito, como se se tratasse de uma qualidade essencial, no um atributo adquirido por fora das circunstncias. Mais ainda: a humildade da origem e o desamparo da sorte se traduzem necessariamente, para o protagonista dos romances espanhis e os que os seguiram de perto, na condio servil.

Em algum momento da sua carreira ele criado, de tal modo que j se sups erradamente que a sua designao proviesse da -, o termo "pcaro" significando um tipo inferior de servo, sobretudo ajudante de cozinha, sujo e esfarrapado. E do fato de ser criado que decorre um princpio importante na estruturao do romance, pois passando de amo a amo o pcaro vai-se movendo, mudando de ambiente, variando a experincia e vendo a sociedade no conjunto.

Mas o nosso Leonardo fica to longe da condio servil, que o Padrinho se ofende quando a Madrinha sugere que lhe mande ensinar um ofcio manual; o excelente homem quer v-lo padre ou formado em direito, e neste sentido procura encaminh-lo, livrando-o de qualquer necessidade de ganhar a vida.

Por isso, nunca aparece seriamente o problema da subsistncia, mesmo quando Leonardo passa de raspo e quase como jogo pelo servio das cozinhas reais, o que o aproximaria vagamente da condio de pcaro no sentido acima referido. Semelhante a vrios pcaros, ele amvel e risonho, espontneo nos atos e estreitamente aderente aos fatos, que o vo rolando pela vida. Isto o submete, como a eles, a uma espcie de causalidade externa, de motivao que vem das circunstncias e torna o personagem um ttere, esvaziado de lastro psicolgico e caracterizado apenas pelos solavancos do enredo.

O sentimento de um destino que motiva a conduta vivo nas Memrias, onde a Comadre se refere sina que acompanha o afilhado, acumulando contratempos e desmanchando a cada instante as combinaes favorveis.

Como os pcaros, ele vive um pouco ao sabor da sorte, sem plano nem reflexo; mas ao contrrio deles nada aprende com a experincia. De fato, um elemento importante da picaresca essa espcie de aprendizagem que amadurece e faz o protagonista recapitular a vida luz de uma filosofia desencantada.

Mais coerente com a vocao de fantoche, Leonardo nada conclui, nada aprende; e o fato de ser o livro narrado na terceira pessoa facilita esta inconscincia, pois cabe ao narrador fazer as poucas reflexes morais, no geral levemente cnicas e em todo o caso otimistas, ao contrrio do que ocorre com o sarcasmo cido e o relativo pessimismo dos romances picarescos.

O malandro espanhol termina sempre, ou numa resignada mediocridade, aceita como abrigo depois de tanta agitao, ou mais miservel do que nunca, no universo do desengano e da desiluso, que marca fortemente a literatura espanhola do Sculo de Ouro. Curtido pela vida, acuado e batido, ele no tem sentimentos, mas apenas reflexos de ataque e defesa.

Traindo os amigos, enganando os patres, no tem linha de conduta, no ama e, se vier a casar, casar por interesse, disposto inclusive s acomodaes mais foscas, como o pobre Lazarillo. O nosso Leonardo, embora desprovido de paixo, tem sentimentos mais sinceros neste terreno, e em parte o livro a histria do seu amor cheio de obstculos pela sonsa Luisinha, com quem termina casado, depois de promovido, reformado e dono de cinco heranas que lhe vieram cair nas mos sem que movesse uma palha.

No sendo nenhum modelo de virtude, leal e chega a comprometer-se seriamente para no lesar o malandro Teotnio. Um antipcaro, portanto, nestas e outras circunstncias, como a de no procurar e no agradar os "superiores", que constituem a meta suprema do malandro espanhol. Se o protagonista for assim, de esperar que o livro, tomado no conjunto, apresente a mesma oscilao de algumas analogias e muitas diferenas em relao aos romances picarescos.

Estes so dominados pelo senso do espao fsico e social, pois o pcaro anda por diversos lugares e entra em contacto com vrios grupos e camadas, no sendo raros os destinos internacionais, como o do "galego-romano" Estebanillo. O fato de ser um aventureiro desclassificado se traduz pela mudana de condio, cujo tipo elementar, estabelecido no primeiro em data, o Lazarillo de Tormes, a mudana de patres.

Criado de mendigo, criado de escudeiro pobre, criado de padre, o pequeno vagabundo percorre a sociedade, cujos tipos vo surgindo e se completando, de maneira a tornar o livo uma sondagem dos grupos sociais e seus costumes -, coisa que prosseguiu na tradio do romance picaresco, fazendo dele um dos modelos da fico realista moderna.

Embora defomado pelo ngulo satrico, o seu ponto de vista descobre a sociedade na variao dos lugares, dos grupos, das classes -, estas, vistas freqentemente das inferiores para as superiores, em obedincia ao sentido da eventual ascenso do pcaro. Nessa lenta panormica, um moralismo corriqueiro para terminar, mas pouca ou nenhuma inteno realmente moral, apesar dos protestos constantes com que o narrador procura dar um cunho exemplar s suas malandragens.

E em relao s mulheres, acentuada misoginia. Embora no sejam licenciosos, como tambm no so sentimentais, os romances picarescos so freqentemente obscenos e usam vontade o palavro, em correspondncia com os meios descritos. O livro de Manuel Antnio de vocabulrio limpo, no tem qualquer baixeza de expresso e, quando entra pela zona da licenciosidade, discreto, ou de tal modo caricatural que o elemento irregular se desfaz em bom humor -, como notadamente o caso da seqncia que narra o infortnio do padre surpreendido em trajes menores no quarto da Cigana.

Mas vimos que tem uma certa tintura de sentimento amoroso, apesar de descrito com ironia oportuna; e a stira, visvel por todo ele, nunca abrange o conjunto da sociedade, pois ao contrrio da picaresca o seu campo restrito. Romance malandro Digamos ento que Leonardo no um pcaro, sado da tradio espanhola; mas o primeiro grande malandro que entra na novelstica brasileira, vindo de uma tradio quase folclrica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cmica e popularesca de seu tempo, no Brasil.

Malandro que seria elevado categoria de smbolo por Mrio de Andrade em Macunama 4 e que Manuel Antnio com certeza plasmou espontaneamente, ao aderir com a inteligncia e a afetividade ao tom popular das histrias que, segundo a tradio, ouviu de um companheiro de jornal, antigo sargento comandado pelo major Vidigal de verdade. O malandro, como o pcaro, espcie de um gnero mais amplo de aventureiro astucioso, comum a todos os folclores.

J notamos, com efeito, que Leonardo pratica a astcia pela astcia mesmo quando ela tem por finalidade saf-lo de uma enrascada , manifestando um amor pelo jogo-em-si que o afasta do pragmatismo dos pcaros, cuja malandragem visa quase sempre ao proveito ou a um problema concreto, lesando freqentemente terceiros na sua soluo.

Essa gratuidade aproxima "o nosso memorando" do trickster imemorial, at de suas encarnaes zoomrficas macaco, raposa, jabuti -, dele fazendo, menos um "anti-heri" do que uma criao que talvez possua traos de heris populares, como Pedro Malasarte.

Por isso, Mrio de Andrade estava certo ao dizer que nas Memrias no h realismo em sentido moderno; o que nelas se acha algo mais vasto e intemp oral, prprio da comicidade popularesca. Esta costela originalmente folclrica talvez explique certas manifestaes de cunho arquetpico -, inclusive o comeo pela frase padro dos contos da carochinha: "Em no tempo do Rei". Ao mesmo universo pertenceria a constelao de fadas boas Padrinho e Madrinha e a espcie de fada agourenta que a Vizinha, todos cercando o bero do menino e servindo aos desgnios da sorte, a "sina" invocada mais de uma vez no curso da narrativa.

Pertenceria tambm o anonimato de vrios personagens, importantes e secundrios, designados pela profisso ou a posio no grupo, o que de um lado os dissolve em categorias sociais tpicas, mas de outro os aproxima de paradigmas lendrios e da indeterminao da fbula, onde h sempre "um rei", "um homem", "um lenhador", "a mulher do soldado" etc.

Pertenceria, ainda, o major Vidigal, que por baixo da farda historicamente documentada uma espcie de bicho-papo, devorador da gente alegre. Pertenceria, finalmente, a curiosa duplicao que estabelece dois protagonistas, Leonardo Pai e Leonardo Filho, no apenas contrastando com a forte unidade estrutural dos anti-heris picarescos ao mesmo tempo nascedouros e alvos da narrativa , mas revelando mais um lao com os modelos populares.

Com efeito, pai e filho materializam as duas faces do trickster: a tolice, que afinal se revela salvadora, e a esperteza, que muitas vezes redunda em desastre, ao menos provisrio.

Sob este aspecto, o meirinho meio bobo que acaba com a vida em ordem, e seu filho esperto que por pouco se enrosca, seriam uma espcie de projeo invertida, no plano das aventuras, da famlia didtica de Bertoldo, que Giulio Cesare Della Croce e seguidores popularizaram a partir da Itlia desde o sculo XVI, inspirados em remotas fontes orientais. No custa dizer que nos catlogos de livraria do tempo de Manuel Antnio aparecem vrias edies e arranjos da famosa trempe, como: Astcias de Bertoldo; Simplicidadesde Bertoldinho, filho do sublime e astuto Bertoldo, e agudas respostas de Marcolfa, sua me; Vida de Cacasseno, filho do simples Bertoldinho e neto do astuto Bertoldo.

Como no h motivo para contestar a tradio, segundo a qual a matria do livro foi dada, ao menos em parte, pelos relatos de um velho sargento de polcia, 5 podemos admitir que o primeiro nvel de estilizao consistiu, da parte do romancista, em extrair dos fatos e das pessoas um certo elemento de generalidade, que os aproximou dos paradigmas subjacentes s narrativas folclricas.

Assim, por exemplo, um determinado oficial de justia, chamado ou no Leonardo Pataca, foi desbastado, simplificado, reordenado e submetido a uma cunhagem fictcia, que o afastou da sua carne e do seu osso, para transform-lo em ocorrncia particular do amoroso desastrado e, mais longe, do bobalho universal das piadas. Noutras palavras, a operao inicial do ficcionista teria consistido em reduzir os fatos e os indivduos a situaes e tipos gerais, provavelmente porque o seu carter popular permitia lanar uma ponte fcil para o universo do folclore, fazendo a tradio anedtica assumir a solidez das tradies populares.

Poderamos, ento, dizer que a integridade das Memrias feita pela associao ntima entre um plano voluntrio a representao dos costumes e cenas do Rio e um plano talvez na maior parte involuntrio traos semi-folclricos, manifestados sobretudo no teor dos atos e das peripcias. Como ingrediente, um realismo espontneo e corriqueiro, mas baseado na intuio da dinmica social do Brasil na primeira metade do sculo XIX.

E nisto reside provavelmente o segredo da sua fora e da sua projeo no tempo. H tambm, claro, eventuais influncias eruditas e traos que o aparentam s correntes literrias que, naquele momento, formavam com as tendncias peculiares ao Romantismo um desenho mais complicado do que parece a quem ler as classificaes esquemticas.

Por este lado que ele se entronca em linhas de fora da literatura brasi leira de ento, que o esclarecem tanto ou mais do que a invocao de modelos estrangeiros e mesmo de um substrato popularesco.

De fato, para compreender um livro como as Memrias convm lembrar a sua afinidade com a produo cmica e satrica da Regncia e primeiros anos do Segundo Reinado -, no jornalismo, na poesia, no desenho, no teatro.

Escritas de a , elas seguem uma tendncia manifestada desde o decnio de, quando comeam a florescer jornalzinhos cmicos e satricos, como O Carapuceiro, do Padre Lopes Gama ; ; e O Novo Carapuceiro, de Gama e Castro Ambos se ocupavamm de anlise poltica e moral por meio da stira dos costumes e retratos de tipos caractersticos, dissolvendo a individualidade na categoria, como tende a fazer Manuel Antnio. Esta linha que vem de La Bruyre, mas tambm do nosso velho poema cmico, sobretudo do exemplo de Nicolau Tolentino, manifestava-se ainda na verdadeira mania do retrato satrico, descrevendo os tipos da vida quotidiana, que, sob o nome de "fisiologia" por "psicologia" , pupulou na imprensa francesa entre e e dela passou nossa.

Embora Balzac a tenha cultivado com grande talento, no preciso recorrer sua influncia, como faz um estudioso recente 6 , para encontrar a fonte eventual de uma moda que era po quotidiano dos jornais. Pela mesma altura, surge a caricatura poltica, nos primeiros desenhos de Arajo Porto-Alegre 7 , e de a desenvolve-se a atividade de Martins Pena, cuja concepo da vida e da composio literria se aproxima da de Manuel Antnio -, com a mesma leveza de mo, o mesmo sentido penetrante dos traos tpicos, a mesma suspenso de juzo moral.

O amador de teatro que foi o nosso romancista no poderia ter ficado margem de uma tendncia to bem representada; e que apareceria ainda, modestamente, na obra novelstica e teatral de Joaquim Manuel de Macedo, cheia de infra-realismo e caricatura. Os prprios poetas, que hoje consideramos uma srie plangente de carpidores, fizeram poesia cmica, obscena e maluca, por vezes com bastante graa, como Laurindo Rabelo e Bernardo Guimares, cujas produes neste setor chegaram at ns.

Romance documentrio? Dizer que o livro de Manuel Antnio de Almeida eminentemente documentrio, sendo reproduo fiel da sociedade em que a ao se desenvolve, talvez seja formular uma segunda petio de princpio -, pois restaria provar, primeiro, que reflete o Rio joanino; segundo, que a este reflexo deve o livro a sua caracterstica e o seu valor.

O romance de tipo realista, arcaico ou moderno, comunica sempre uma certa viso da sociedade, cujo aspecto e significado procura traduzir em termos de arte. Isto posto, resta o fato que o livro de Manuel Antnio sugere a presena viva de uma sociedade que nos parece bastante coerente e existente, e que ligamos do Rio de Janeiro do comeo do sculo XIX, tendo Astrojildo Pereira chegado a compar-lo s gravuras de Debret, como fora representativa 8.

No entanto, o panorama que ele traa no amplo. Restrito espacialmente, a sua ao decorre no Rio, sobretudo no que so hoje as reas centrais e naquele tempo constituam o grosso da cidade. Nenhum personagem deixa o seu mbito e apenas uma ou duas vezes o autor nos leva ao subrbio, no episdio do Caboclo do Mangue e na festa campestre da famlia de Vidinha. Tambm socialmente a ao circunscrita a um tipo de gente livre modesta, que hoje chamaramos pequena burguesia.

Fora da, h uma senhora rica, dois padres, um chefe de polcia e, bem de relance, um oficial superior e um fidalgo, atravs dos quais vislumbramos o mundo do Pao. Este mundo novo, despencado recentemente na capital pacata do Vice-Reinado, era ento a grande novidade, com a presena do rei e dos ministros, a instalao cheia de episdios entre pitorescos e odiosos de uma nobreza e uma burocracia transportadas nos navios da fuga, entre mquinas e caixotes de livros. Mas dessa nota viva e saliente, nem uma palavra; como se o rio continuasse a ser a cidade do vice-rei Luis de Vasconcelos e Sousa.

Havia, porm, um elemento mais antigo e importante para o quotidiano, que formava a maior parte da populao e sem o qual no se vivia: os escravos. Tratado como personagem, apenas o pardo livre Chico-Juca, representante da franja de desordeiros e marginais que formavam boa parte da sociedade brasileira. Documentrio restrito, pois, que ignora as camadas dirigentes, de um lado, as camadas bsicas, de outro. Mas talvez o problema deva ser proposto noutros termos, sem querer ver a fico como duplicao -, atitude freqente na crtica naturalista que tem inspirado a maior parte dos comentrios sobre as Memrias, e que tinha do realismo uma concepo que se qualificaria de mecnica.

Na verdade, o que interessa anlise literria saber, neste caso, qual a funo exercida pela realidade social historicamente localizada para constituir a estrutura da obra -, isto , um fenmeno que se poderia chamar de formalizao ou reduo estrutural dos dados externos. Para isso, devemos comear verificando que o romance de Manuel Antnio de Almeida constitudo por alguns veios descontnuos, mas discernveis, arranjados de maneira cuja eficcia varia: 1 os fatos narrados, envolvendo os personagens; 2 os usos e costumes descritos; 3 as observaes judicativas do narrador e de certos personagens.

Quando o autor os organiza de modo integrado, o resultado satisfatrio e ns podemos sentir a realidade. Quando a integrao menos feliz, parece-nos ver uma justaposio mais ou menos precria de elementos no suficientemente fundidos, embora interessantes e por vezes encantadores como quadros isolados. Neste ltimo caso que os usos e costumes aparecem como documento, prontos para a ficha dos folcloristas, curiosos e praticantes da petite histoire.

Temos nele uma descrio de costumes procisso dos Ourives ; o retrato fsico e moral de um novo personagem, que d nome ao captulo; e a ao presente, que o debate sobre o menino Leonardo, com participao de Dona Maria, do Compadre, da Vizinhana. Apesar de interessante, tudo nele est desconexo.

KAKO EDITIRATI PDF

Dialética da malandragem (Antonio Candido)

Vudolabar Competing Readings Roberto Schwarz discusses the cultural-political import of rival interpretations of Machado de Ad, within the critical space of world literature. Advanced aesthetic positions combined with militant anti-fascism and opposition to Stalinism made for an uncommon clarity of mind that did not age with the years. By the same author: Antonio Candido was above all a critic and a teacher, and malandraggem with a rare sense of cultural strategy, in the face of the pressing concerns arising in a marginal, backward country for which literary theory had no name. For all that, however, aesthetic and political positions are not enough as an intellectual characterization.

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Antonio Candido - Dialética da Malandragem

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Artigo - Dialética da malandragem (Antonio Candido)

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